sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Carcereiro não é Agente de Segurança Penitenciária

por Gabriela Mello
Apesar de ambos serem funcionários públicos e das tarefas diárias serem muito semelhantes, a profissão de carcereiro e de Agente de Segurança Penitenciária (ASP) se diferem em muitos aspectos. Ambos representam o elo entre o preso e o Estado e estão encarregados de fazer cumprir a sentença judicial determinada segundo o código Penal.

De acordo com o Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo (Sifuspesp), hoje há cerca de 23 mil ASP’s espalhados nas 147 unidades prisionais espalhadas pelo Estado.

São 33 Centros de Detenção Provisória mais um anexo, 74 penitenciárias e três unidades de segurança máxima, 22 centros de ressocialização, sete centros de progressão penitenciária e 2 institutos penais agrícolas em todo o Estado de São Paulo, de acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), responsável pela coordenação do sistema prisional.

A infraestrutura destas instalações, cuja construção começou em 2002, é de longe superior em relação a das cadeias públicas, ainda que o problema de superlotação seja mútuo. Para participar do concurso é preciso ter ensino médio completo e maioridade civil. O salário inicial é de R$1.935,00 com turnos de 12 horas de trabalho e 36 de descanso, segundo o Sifuspesp. Após a aprovação, os candidatos passam por um processo de treinamento promovido pela Escola de Administração Penitenciária.

Por ser apenas um civil, o ASP, como é conhecido, não tem porte legal de arma de fogo e nem as prerrogativas da função do cargo policial. Como qualquer outra pessoa pode prender em flagrante quem seja surpreendido na prática de um ilícito penal, ao passo que o policial tem o dever de fazê-lo.

Em contrapartida, o carcereiro, que integra o conjunto da Polícia Civil, goza do título de autoridade. Depois do concurso público, o indivíduo segue para a Academia de Polícia “Doutor Coriolano Nogueira Cobra”, localizada na Cidade Universitária, onde aprende diretrizes do exercício da função, recebendo instrução comportamental teórica e prática. É treinado para enfrentar situações anômalas e excepcionais que podem vir a acontecer, ou seja, aquelas não contidas nos livros, mas vivenciadas.

Segundo dados atualizados em fevereiro deste ano pela Associação dos Funcionários da Polícia Civil do Estado de São Paulo (AFPCESP), há 4.004 profissionais divididos em cinco classes distintas, da quarta à especial. Antigamente os aprovados começavam na quinta classe, mas a ausência de novos de concursos desde 2004, ano em que a última turma foi selecionada, extinguiu este degrau hierárquico.

A transição da terceira para a segunda classe e da primeira para a classe especial acontece por meio de um curso específico de aperfeiçoamento, regulamentado pela Lei Complementar nº 675/1992, também realizado na Academia Polícia Trata-se de um pré-requisito que capacita o profissional no caso de uma eventual promoção.

A carga horária varia de oito a dez horas de aula por dia, o equivalente a um total de 190 horas. O tempo previsto para conclusão do curso é de seis a doze meses, sendo que o número de alunos por turma não ultrapassa 40 pessoas.

O piso salarial de um carcereiro recém-formado é de R$511,00, mas por ser uma função insalubre recebe-se também uma bonificação de Regime Especial de Trabalho Policial (RETP), totalizando R$1.023,84 para um iniciante na quarta classe. A remuneração é modificada a cada cinco anos, mediante desempenho do funcionário. Os que não têm faltas nem afastamento recebem 5% de aumento. Ao completar 20 anos de carreira, o carcereiro ganha a chamada sexta parte, que corresponde a 20 por cento do valor padrão (base). Ao final de 40 anos de ofício, o salário máximo que um carcereiro pode obter é de R$2.493,22.

Apesar das disparidades burocráticas, o psiquiatra da Corregedoria da Polícia Civil do Estado de São Paulo, Paulo Sérgio Calvo, garante que, psicologicamente, o carcereiro e o ASP apresentam comportamento semelhante, tendo em vista o ambiente de constante tensão em que trabalham. "Não tem muita diferença. A única é que o ASP gostaria de ser um carcereiro, ou seja, é frustrado. Muitos deles carregam armas e se apresentam como autoridades”, explica o médico.

Embora seja uma autoridade policial, o carcereiro sofre preconceito no ambiente em que atua profissionalmente, em especial por parte dos colegas de trabalho. "Ele não é autoridade, mas também não deixa de ser porque afinal de contas ele é da polícia. Mas é apenas um carcereiro...está lá em baixo. Então é o tal negócio, o delegado manda no escrivão, que manda no investigador, que manda no carcereiro", completa ele.

Já no caso do ASP, o preconceito geralmente vem de fora, pois não há distinção hierárquica que o diminua frente aos demais. A diferença comportamental entre eles, portanto, é que o ASP se mostra mais orgulhoso do que faz, enquanto o carcereiro, algumas vezes, se esconde sob o termo de agente policial.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Superlotada, cadeia de Jundiaí (SP) tem 2 presos por metro quadrado

Maurício Simionato
da Folha

Lixo acumulado por todos os lados, presos com doenças respiratórias e de pele, como sarna e micose, canos usados como chuveiro e vaso sanitário. Essa é a situação da cadeia de Jundiaí (60 km de São Paulo), que abriga 500 detentos, mas tem capacidade para 120.

Na semana passada, o juiz Jefferson Torelli decidiu soltar os presos do local caso o problema da superlotação não seja resolvido até o final do mês.

A situação de caos e de degradação da cadeia foi descrita ontem por carcereiros e parentes de presos ouvidos pela Folha. Segundo um carcereiro que não quis se identificar, são 25 presos em cada uma das 20 celas de 12 m2 --dois detentos por m2. Na mesma unidade, sete presos morreram asfixiados por fumaça em 2006, após uma rebelião de 21 horas.

Parentes de presos e policiais dizem que os detentos se revezam para dormir amontoados no chão quase sempre úmido. Apenas um terço dos presos têm colchão. Danificado por inúmeras tentativas de fuga, o interior da cadeia lembra um "queijo suíço", na descrição de um policial que trabalha lá.

Na manhã de ontem, afirmou o carcereiro, os presos estavam sem água por um problema na bomba de sucção, situação recorrente nos últimos 15 dias. O clima entre presos e carcereiros é tenso, disse.
Nas quatro horas em que a reportagem permaneceu ontem diante da cadeia, situada em área residencial, mais um preso chegou, suspeito de furto. Outro detento foi transferido de ambulância após ter desmaiado diante da mãe durante o horário de visitas.

A auxiliar de limpeza Regina de Aguiar, 52, foi retirada da cadeia após o desmaio. Chorando, ela disse que o filho, de 24 anos, está com uma clavícula quebrada há quatro meses, sem tratamento adequado.

"Ele usa apenas uma tipoia improvisada e agora tem uma pelota de osso no ombro." "Os presos estão revoltados", disse a mãe de preso e auxiliar de enfermagem Luzia Correia, 55.

Outro lado
Procurada, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo não comentou as críticas sobre as condições da prisão. A secretaria se negou a confirmar o número de presos no local, alegando "razões de segurança".

A secretaria informou ainda que manifestações sobre a decisão do juiz Torelli ficarão a cargo da Procuradoria Geral do Estado, que afirmou estudar a melhor medida para reverter a decisão na Justiça.

O delegado seccional assistente de Jundiaí, Orlando Pavan, disse anteontem que a polícia não tem para onde levar os presos excedentes. Também reconheceu a superlotação nas unidades.

No gabinete do juiz Torelli, a informação ontem era que ele estava afastado desde segunda-feira do trabalho e só voltaria na próxima segunda-feira (19).

Entrevista: Dr. Paulo Sérgio Calvo

por Gabriela Mello

"Eu não decidi, na verdade decidiram por mim". Foi assim que o Doutor Paulo Sérgio Calvo, 53, definiu sua entrada na área de psiquiatria forense junto ao Governo do Estado de São Paulo. O médico presta atendimento aos funcionários no presídio especial da Corregedoria da Polícia Civil desde outubro de 2000. Formou-se em psiquiatria em 1986 e hoje trabalha nos Fóruns Criminais Central e Federal. Participa também de perícias junto ao Instituto de Medicina Social e Criminologia de São Paulo, o Imesc e desde 1992 atua como médico psiquiatra efetivo do Governo do Estado de São Paulo. Dr. Calvo nos recebeu em sua sala no Presídio da Corregedoria para um bate-papo sobre os aspectos psicológicos da vida de um carcereiro.


· O que leva um indivíduo a seguir este tipo de carreira?
São dois motivos que os leva a procurar a profissão. Primeiro a estabilidade no emprego e, segundo, a suposta e fantasiosa idéia de autoridade, ele passa a ser da polícia. É um cargo que não exige formação cultural e atrai pela oportunidade de ter um emprego fixo, pra toda vida. Qualquer outro serviço que o carcereiro fizesse dentro do nível cultural dele, não teria a progressão que tem na polícia. Fora da polícia não existe isso. É aquele ‘carguinho’ simples e vai ser isso pro resto da vida. Então são essas duas motivações. E também uma terceira, que é a possibilidade de arrumar um "bico", um ganho extra. Fazendo alguns serviços às vezes apropriados e às vezes muito inapropriados, mas aí não é somente o carcereiro, mas também toda a classe.

· Qual é a função real do carcereiro? Como eles lidam com a pressão?
Ele é na realidade o elo entre o encarcerado e a autoridade. Então é ele que toma conta do preso, que recebe o preso, que atende às necessidades do preso. E em função disso ele está sob constante tensão. Então em uma tentativa de rebelião ou fuga, a linha de frente é ele, que sabe disso. As ofertas de vantagens dos presos para que ele facilite, faça vistas grossas, é muito grande. Então também tem de lidar com os próprios valores. E se ele não tiver valores muito firmes, tem de lidar com as conseqüências. Porque se ele se deixar corromper, vai sofrer conseqüências tanto pelo lado dos presos quanto pelo lado dos comandantes.

· Quais problemas essa tensão diária pode acarretar na saúde do profissional?
Geralmente, 90% sofrem de alcoolismo, e os outros 10% consomem outro tipo de droga, normalmente a maconha, porque acalma, relaxa, tranqüiliza, dá fome, dá sono etc. A maior incidência de procura por serviço de saúde mental no caso do carcereiro é o uso de substâncias psicoativas nocivas. A segunda causa maior é síndrome do pânico. A terceira é a ansiedade generalizada. A quarta é depressão. A quinta é um misto de ansiedade com depressão. E alguma coisa, além disso, já é doença mesmo, independente da carreira de carcereiro.

Agora dentro do serviço de carcereiro você tem um transtorno psicoemocional chamado estresse pós-traumático. Este se caracteriza por uma reação psicoemocional depois que o individuo passa por uma situação de estresse momentânea ou continuada. Em alguns casos, eles desenvolvem isso no decorrer das funções, principalmente quando vão para regiões mais exigentes, mais perigosas, mais instáveis, onde o banditismo impera dentro e fora da cadeia. O indivíduo então começa a desenvolver dentro e fora da cadeia medo e depressão, o que passa a interferir no seu comportamento não só no trabalho, mas também no social, na família, no religioso, no cultural etc. E ai ele nos procura. Tudo isso varia de pessoa pra pessoa, depende de cada um.

Tem gente que tem perfil para ser carcereiro. Vai lá, agüenta as pontas, briga, enfrenta, encara, é o tal "machão". Mas tem gente que é um pouco mais sensível, tem um pouco menos de coragem e ai ele pega este trabalho e no decorrer das suas funções, das suas atividades, começa a ver que aquilo o afeta. Mas ele já está num ritmo e continua até chegar o momento que se desencadeia alguma coisa, quando então surgem não só os pedidos de afastamento como também a readaptação funcional.

Às vezes o tratamento dura anos, às vezes não tem resultado, depende muito da sua categoria de base. O indivíduo que já tem uma pré-disposição e entra nesta função, vai desenvolver [algum problema]. Se ele fosse para qualquer outra atividade, não teria problema nenhum, apesar da pré-disposição. Então, basicamente por que o carcereiro nos procura? Primeiro para sair da situação de estresse. Muitas vezes ele até não tem nada, mas está numa situação crítica e...quer sair dali. Já que ele não consegue de um jeito, vai tentar de outro. Ele procura qualquer problema de saúde pra tentar se afastar daquela situação momentânea ou então vai desenvolvendo sintomas de acordo com a sua ansiedade.

· A incidência dos carcereiros procuram ajuda é muito alta?
Já chega a 40%. É altíssima, pelo próprio ambiente que vivem. Porque você tem que agüentar a sedução do preso, a ameaça do preso e o próprio preso. Quanto mais perigoso ele é, mais vai tentar atingir a pessoa mais próxima [do carcereiro] para conseguir algum benefício ou facilitar a entrada de alguma coisa ou até a saída dele. Alguns tentam na base da amizade, outros tentam na base da corrupção, outros na ameaça....

· E quando um carcereiro dá de cara com um primo, um parente, um vizinho dentro da cadeia? Como lida com a situação? É difícil separar?
Disso nós temos pouquíssimos casos, dá para contar nos dedos. Quando ocorre, normalmente o preso é transferido para um local mais “tranqüilo”. Então, ele [o carcereiro] às vezes tenta aliviar a situação do parente, do conhecido, do amigo que está preso em qualquer delegacia ou CDP. Aí acaba fazendo besteira, mete os pés pelas mãos... Ai nos flagrantes acaba preso e se complica.

· O preconceito é muito grande na profissão? Como o carcereiro é visto pelo resto da polícia?
De novo nós vamos cair no "lance" da personalidade. Porque é o tal negócio: o carcereiro é a classe mais baixa, então eles são discriminados. Eles reclamam e se ressentem disso. Agora, isso também não é motivo para eles procurarem tratamento.

· Em qual situação a ajuda psicológica vai até o carcereiro?
Nenhuma.

· Existe algum tipo de acompanhamento?
Não. Infelizmente. A Polícia Civil é muito diferente da PM. Na Polícia Civil nós temos duas falhas que são gravíssimas. Uma é que não se procura o individuo que está dando problema no seu local de trabalho. Ele não é tirado do ambiente para fazer tratamento, é jogado. Hora ele está numa delegacia, hora está em outra. Quanto mais problemático, mais ele é arrastado para aquelas delegacias problemáticas ou de periferia. De preferência pra bem longe de casa.

Não há uma conscientização da necessidade de se buscar um tratamento para esse indivíduo. Há uma tendência de excluir esse profissional. Ou pelo caráter duvidoso ou por ser um problemático. Teve uma época em que eu vi muito carcereiro com limitação intelectual. Como é que um indivíduo passa em um concurso, faz uma academia e é colocado com uma arma na cintura e um distintivo?

· Hoje como está o processo de seleção?
Eu acho que hoje a coisa deve estar um pouquinho melhor. Eu vejo gente que já está mal adaptada desde a época da academia, mas ninguém exclui. E a pessoa vai seguindo com um monte de processo administrativo e problemas comportamentais, mas vai sendo empurrado. É o famoso vai sendo ‘jogado embaixo do tapete’ ou ‘empurrado com a barriga’.

· O senhor mencionou que há dois problemas dentro da Polícia Civil. Um é a falta de acompanhamento, e o outro?
O segundo ponto gravíssimo é o individuo que tem um problema e está em tratamento, mas sua arma não é recolhida, o trabalho não é recolhido. Dentro da Polícia Militar, quando o indivíduo cai na psiquiatria, a arma é recolhida e ele começa a fazer trabalho interno.

Eu estou cansado de ver gente que estava com problemas psicoemocionais ou psíquicos sérios e continuam na linha de frente, continuam lá na delegacia, lá no presídio, lá no CDP. É aí que as besteiras acontecem, coisas que já são previsíveis.

· Qual a diferença entre o carcereiro e o ASP?
Não tem muita diferença psicológica. A grande diferença é que o ASP é um carcereiro frustrado. Ele tem a carteirinha de ASP, mas vai lá na Tiradentes, compra uma carteira com o brasão e exibe aquilo como se autoridade fosse. Muitos deles inclusive carregam armas.

· O preso respeita mais o carcereiro por se tratar de um policial?
A maioria não. Porque preso é preso. Antigamente existia um pouco mais de respeito, até pela figura do médico dentro do presídio. Hoje não existe mais. Antes, em qualquer tumulto, o médico era a figura protegida, mas não é mais. O preso tem muito pouco a perder e as leis atuais o protegem muito. Então o preso já não tem mais essa consciência, esse discernimento.

· E como é que é feito o atendimento psicológico? Tem algum hospital específico?
Não, infelizmente não. De novo, diferente da PM, ele que se vire para procurar atendimento na rede ou particular.

· Então quando um profissional é afastado para tratamento psiquiátrico após um trauma, ele praticamente ‘se vira’?
Não praticamente. Ele tem que se virar literalmente. Inclusive, não tem suporte dentro da própria polícia e muitas vezes não precisaria estar afastado.

· E quem decide se ele vai ser afastado ou não?
Qualquer médico. O policial é um funcionário público como qualquer outro. Então não existe um setor mais específico. Hoje no DAP tem um setor muito bem montado, com vários médicos. Médicos que estavam no DETRAN e foram para o DAP. Funciona muito bem, mas quem mais se beneficia com isso são os delegados, porque daqui pra baixo não é divulgado. E se for divulgado lá não vai faltar serviço. Além disso, a maioria dos profissionais nessa área são homens e eles não gostam de dar o braço a torcer assim. As carcereiras procuram atendimento muito mais rápido que o carcereiro. As pressões são diferentes.

· Qual seria a diferença entre o carcereiro homem e mulher?
O tipo da população que você atende. Eu sinceramente prefiro trabalhar mil vezes com mil homens do que com cinco mulheres. Até o ano passado, eu trabalhei ao mesmo tempo na FEBEM, que agora é Fundação Casa, na administração penitenciária e aqui. Então eu peguei os carcereiros da FEBEM, da penitenciária feminina e daqui, passei a conviver com os três. É pior lidar com presas mulheres.

· Por que as mulheres são mais difíceis?
Elas têm uma aparência mais frágil e se aproveitam disso. Agora, quando resolvem fazer escândalo é com elas mesmo. E tem mais um detalhe, as mulheres têm menos higiene e organização que os homens. Se você chega em uma cadeia de mulheres tem roupa espalhada, sujeira, banheiro sujo. Nos homens não! Eles são muito mais organizados.

· E quanto à aposentadoria por invalidez?
Na Febem, o índice é alto. Se você for pegar o do carcereiro, do ASP e do Agente de Apoio Técnico da Fundação Casa, o último ganha de lavada. O indivíduo vive em um nível de estresse tão grande que incapacita. No maior de idade, você tem mais mecanismos de contenção do que no menor. No menor, você não pode nada e eles podem tudo. Quando o indivíduo é maior de idade, a coisa se equilibra um pouco.

· E a questão da autoridade, os presos respeitam?
O carcereiro não é autoridade, mas também não deixa de ser. Porque afinal de contas ele é da polícia, ele é um policial. Mas é apenas um carcereiro, está lá em baixo. Então é o tal negócio, o delegado manda no escrivão, que manda no investigador, que manda no carcereiro. O carcereiro não tem mais ninguém para mandar, então desconta na mulher ou no preso.

· O que é maior: o número de pedidos de exoneração ou afastamento?
Afastamento. Ninguém pede exoneração, lógico. É preferível ficar afastado ganhando salário.

· E quem decide quando o profissional volta à ativa?
O médico. Funciona da seguinte forma. Ele [o médico] dá a licença durante um período determinado e o carcereiro passa por reavaliações periódicas. Ou ele depois de um X tempo, normalmente são cinco anos, volta à ativa ou se aposenta. No Estado poucos são readaptados, o que é um erro.

· O ultimo concurso para carcereiro foi em 2004 e, com a construção dos CDPs, as cadeias públicas não estão tão superlotadas como antes. Você acredita que a profissão de carcereiro está em extinção?
Não. Pode ter uma diminuição muito grande, muito drástica, mas extinção nunca. Sempre haverá as prisões temporárias, nas quais o indivíduo fica dois ou três dias. Principalmente no interior, porque eles não vão mandar crime pequeno aqui para o CDP.

· Depois da construção dos CDPs e diante de um número menor de detentos sob custódia, você diria que o perfil do carcereiro mudou?
[Por ter menos trabalho] ele vai executar atividades que não são inerentes à sua função. Ai é óbvio, 90% deles têm outra atividade. Eu não condeno, ao contrário, culpo o governo por não dar a infraestrutura que deveria. Segurança e saúde estão sempre em último plano. Falar que não tem policial corrupto é mentira e que não tem carcereiro corrupto é mais mentira ainda. Às vezes muita gente entra pra ser carcereiro justamente já com esta intenção.

· Como você classificaria o nível de corrupção na função de carcereiro?
Altíssimo.

· Você já teve que tratar ou lidar com carcereiros corruptos?
Eu já vi muitos carcereiros com a vida que poucos delegados teriam. Como eu conheço vários investigadores e escrivãos que têm carros importados, casa na praia, sítio, casas lindas...

· Quando flagrado, ele tenta corromper a própria polícia ou não?
Não, ele tenta negar de todas as maneiras e quando não consegue, arruma outro subterfúgio dizendo que não estava bem. Começa a alegar insanidade mental.

· É possível o carcereiro corrupto se recuperar?
Não. Na realidade, a corrupção é a índole. Trata-se de uma questão de caráter. Ou ele se deixou corromper por uma determinada situação ou pressão, ou o caráter dele é duvidoso. Peguei vários carcereiros que não eram corruptos e sofreram represália justamente por não serem.

· Que tipos de represália?
Discriminação dos companheiros que são corruptos. Dizer que não existe corrupção na polícia é meio estranho. Ou ele tem os valores éticos muito bem realizados ou se deixará corromper em algum momento.

· Os profissionais corruptos costumam alegar problemas psicológicos?
É o que normalmente acontece em 90% das vezes. Ele faz alguma coisa errada e dá certo, então faz a segunda e depois a terceira. Quando é pego, ele entra em depressão, não porque fez coisas erradas, mas por causa das conseqüências que virá a sofrer. O corrupto usa a depressão para dizer que está arrependido e diz que, por culpa disso, praticou os atos ilícitos. Às vezes, é uma contravenção, um abuso de poder, vejo muito isso. Principalmente em termos de agressão.

· Ele agride o preso?
Ele agride qualquer pessoa. Isso é o que mais ocorre com os carcereiros. O indivíduo fica naquele ambiente de tensão e começa a agredir a esposa, depois passa para a agredir o preso por qualquer motivo. Então alguém manda nos procurar. Ou a própria mulher ameaça deixá-lo caso não procure um médico ou o seu superior hierárquico exige. Ele vem me visitar e diz “olha doutor, é o seguinte, eu não era assim”.

· Você diria que a profissão de carcereiro reduz a sensibilidade do indivíduo?
Com certeza. E isso às vezes agride o próprio indivíduo, que se sente violentado em relação as suas características pessoais.

· Em que momento acontece tal desestruturação de comportamento?
É uma somatória. Viver naquele ambiente de tensão constante leva a isso.

· A pessoa que não é agressiva pode se tornar?
Ela vai se tornar agressiva e menos sensível.

· Invariavelmente
Invariavelmente. ?


· Qual é a diferença entre tensão e pressão?
A pressão é quando você sofre uma pressão externa. A tensão é quando está num ambiente em que está sempre prestes a acontecer qualquer coisa a qualquer momento. Isso gera uma ansiedade permanente. Por isso, o indivíduo desenvolve pressão alta, insônia, intolerância, irritabilidade, baixo limiar de agressividade.

A principal queixa da mulher é ‘ele se tornou um cavalo e fica dando coice por qualquer coisa’. Mas às vezes, o cara não percebe. O indivíduo não tem um suporte, algum local em que possa fazer uma terapia. Não tem a própria reciclagem do trabalho e aquele que possui uma personalidade mais fragilizada é o mais afetado. Esses que nos procuram. Agora, tem também o carcereiro que passa pela profissão ‘liso’, sem nenhum problema e desenvolve seu trabalho como deve ser.

· Você acredita que a avaliação psicológica feita depois do concurso é falha?
Não tem uma avaliação psiquiátrica e psicológica muito aprofundada nem na Polícia militar, que é mais rígida.

· E o que isso pode causar?
Recentemente, eu atendi um policial militar que quando entrou, ou seja após fazer a prova e passar no exame médico e no psicotécnico, já era psicótico. Esquizofrênico de ter alucinação auditiva. Ele me disse que tinha feito um pacto com o diabo. Se ele passasse no concurso, e se tornasse um policial militar, daria sua alma para o diabo. Quando passou, mudou de ideia e falou que, ao invés de dar a própria alma, daria a de sete pessoas. Pedi para recolher esse cara para a casa de tratamento para o resto da vida.

· Essas histórias são comuns?
Tem histórias absurdas.

· Quais são os crimes mais comuns praticados por carcereiros?
É o crime de concussão, o 316, que é a corrupção passiva, quando aceita um suborno. No plantão dele, não acontece nada. Mas no plantão em que ele não está acontece alguma coisa. Mas não adianta. O indivíduo ganha pouco, enquanto a pressão é muita. A pressão socioeconômica e familiar é grande e aí ele acaba cedendo. Ou momentaneamente ou por caráter.

· Como funciona o concurso?
O concurso é igual para delegado, investigador e carcereiro. É a prova teórica com a entrevista. Tem também psicotécnico. Eles deveriam obrigatoriamente passar por um exame psiquiátrico e por um teste de personalidade porque lidam com a vida humana. O gatilho está no dedo dele. A autoridade de manter o indivíduo preso, vivo ou morto, dentro da cadeia é dele.

· O concurso não conta com este tipo de avaliação médica?
Não.

· Como é a entrevista que você mencionou anteriormente?
É só uma entrevista, aquele teste psicológico bobinho. Que em qualquer exame médico de motorista você faz com o pé nas costas.

· Quem faz essa entrevista? Seria um psiquiatra?
Não. É com um psicólogo.

- Faria alguma diferença se fosse um psiquiatra?
O psiquiatra enxergaria uma psicopatologia de base, enquanto o psicólogo não tem formação pra isso. O psicólogo é técnico, ou seja, não está capacitado para isso.

· Por isso alguns carcereiros que têm limitação intelectual são admitidos?
Passam os limítrofes. Tanto os limítrofes intelectuais quanto o limítrofe psicopático. O limítrofe doente mental, aquela personalidade esquizóide que vai desenvolver uma psicose.

· Geralmente, quando ocorre uma rebelião ou motim, o carcereiro é investigado por meio de um processo administrativo. Neste caso, existe algum acompanhamento na área de psicologia?
Não, é burocrático. A Polícia Civil é muito desassistida de saúde mental. Engraçado por que é a área que devia ter mais acompanhamento. No caso da PM, é um pouco diferente porque o funcionário trabalha fardado. O próprio visual interfere na conduta do indivíduo, que fica mais contido. O Polícial Civil tem a postura de ‘relaxadão’.

· Você diria que as dificuldades enfrentadas pelo carcereiro e pela cacereira são muito díspares?
Sim, porque os crimes cometidos por mulheres são praticamente só três: homicídio, tráfico de drogas e furto. De vez em quando vemos um caso de estelionato muito mau feito. Há muito menos mulheres interessadas em corromper a carcereira, em ameaçá-la e fazer rebeliões.

· É verdade que na maioria das vezes a mulher chega ao crime por intermédio do companheiro?
Em grande parte, sim. Mas também pode ser motivo circunstancial. Neste ponto, as leis brasileiras também são falhas porque a mulher é desamparada tanto pelo companheiro quanto pela lei. Só há uma lei que protege a mulher. É a Lei Maria da Penha, mas se limita apenas contra a agressão.

· Episódios de agressão sexual são comuns nessa área?

No caso dos homens, não. Nas cadeias femininas, a mulher sofre muito mais assédio do que agressão. Mas eu sei de muitos casos de carcereiros envolvidos em processos mil porque abusaram das presas.


· Homens podem trabalhar em cadeias femininas. E quanto às mulheres?
Só trabalham em unidades femininas. Nas cadeias masculinas, há somente carcereiros porque em uma rebelião a mulher é presa fácil. Eles também podem atuar em cadeias femininas. É importante porque a figura masculina contém um pouco a impulsividade das mulheres. Se ela “tomar um pau” de um homem é diferente de “tomar um pau” de uma mulher.

· O homossexualismo é frequente dentro das cadeias? Como a figura do carcereiro lida com esse tipo de situação?
Muito, é onde mais se desenvolve. Mas principalmente nas femininas, na masculina nem tanto. A questão, na realidade, é que elas são forçadas e acabam gostando pela própria carência. A mulher é mais carente afetivamente e emocionalmente que o homem, pela própria constituição genética.

O homem pode ser muito menos afetivo, muito menos emotivo, mas sofre muito mais. O profissional em geral, não é só carcereiro, é também o psicólogo dos presos, porque você tem de tudo. Ele passa a ser o médico, o psicólogo, o padre. Ele passa a ser uma figura de apoio entre os presos.

· E quando o carcereiro conquista a confiança do preso e fica sabendo de uma eventual rebelião. Se resolve levar esta informação para a polícia, o que acontece? Como funciona? Ele sofre represálias dos presos?

Ele passa a ser ameaçado não dentro, fora. Desenvolve pânico, uma certa fobia. Passa a ter medo de tudo e de todos. Ele cumpriu seu dever, informou sobre uma possível rebelião, e então começa a ser perseguido.

· Qual é o grau incidência de homicídios envolvendo carcereiros?
É pequeno, muito pequeno. O de investigador é muito maior. O homicídio é mais comum do lado de fora e por motivos que nada têm a ver com a polícia.

· O policial que comete um crime fora do ambiente de trabalho é detido junto com os outros presos?
Não, ele nunca pode ser preso junto com os outros. Porque se um preso comum descobre que ele é policial, ele morre na hora. Então aqui [presídio da corregedoria] não é na realidade um presídio para diferenciar, e sim para mantê-los vivos.






sábado, 12 de setembro de 2009

Polícia encontra carregadores de celular escondidos em pães em cadeia de SP

Do Globo

SÃO PAULO - Policiais encontraram carregadores de celulares escondidos dentro de pães, nesta terça-feira, durante a revista nas oito celas da cadeia de Capão Bonito, no interior de São Paulo. Os policiais também descobriram aparelhos celulares no sistema de esgoto do prédio.

A revista foi realizada um dia depois da rebelião que fez dois carcereiros e um menor infrator reféns. O motim durou sete horas e aconteceu durante a retirada dos presos que fazem a faxina. Os 94 presos ficaram durante todo o tempo no pátio da cadeia. Segundo a polícia, alguns estavam armados.

Esta foi a primeira rebelião este ano na cadeia, mas em fevereiro, durante o carnaval, duas pessoas entraram na cadeia, renderam o carcereiro e um escrivão que estavam de plantão, abriram as celas e libertaram 37 presos.

A cadeia tem capacidade para 32 pessoas, mas na época, tinha 81. A cadeia fica em um bairro residencial, o que preocupa os moradores.

De acordo com a polícia, os carregadores foram colocados no pão dentro da cadeia, ou seja, depois que eles foram entregues aos detentos.

Presos mantém adolescente refém durante rebelião em Campo Limpo, SP

do jornal O Globo
SÃO PAULO - Detentos mantiveram reféns 3 pessoas, entre elas um adolescente, durante uma rebelião que durou mais de 7 horas na cadeia de Capão Bonito, a 218 quilômetros de São Paulo. O motim teve início por volta das 19h deste domingo.

Após uma tentativa de fuga, os detentos renderam dois carcereiros e obrigaram os funcionários do presídio a abrir uma cela onde se encontrava um adolescente infrator. O menor e os dois carcereiros ficaram em poder dos reféns até o início desta madrugada.

Mais de 70 policiais, 5 delegados, o juiz corregedor dos presídios e o promotor de Justiça da cidade tentaram negociar com os amotinados, que só se renderam após a chegada de advogados.
A cadeia de Capão Bonito tem 8 celas com capacidade para 32 presos, mas atualmente abriga 94.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Silvia

por Gabriela Mello

Semblante tranquilo, fala articulada e budista. Essa é Silvia. Uma pessoa aparentemente ‘relax’, apesar das tensões proporcionadas pelo ambiente de trabalho. Não são relatórios, nem reuniões, nem eventos corporativos que atropelam seu dia-a-dia, mas 184 presas distribuídas em apenas 10 celas com capacidade para apenas 60.

Carcereira há 24 anos, ela herdou, assim como seus irmãos, a vocação do pai para o cargo. Silvia vem de uma família de carcereiros.

Mãe solteira de dois meninos, ela decidiu prestar o concurso para garantir um salário fixo que garantisse a educação dos filhos. Ingressou na carreira aos 30 anos de idade com um certo receio do que estava por vir. “Quando eu prestei meu concurso, prestei morrendo de medo. Olhava assim pela grade e pensava que não ia conseguir”, lembra.

Hoje carcereira-chefe, Silvia supervisiona, além das muitas detentas, mais 15 funcionários. “A gente tem que ser psicólogo, assistente social. Tem que ter jeito para poder lidar com um ser humano problemático”.
Ela sempre aconselha os demais carcereiros a não trazer problemas de casa para a cadeia. “É um trabalho difícil em um ambiente negativo, se fizermos dele ainda pior, a parte funcional fica muito mais complicada”.

Seu menino mais velho já pensa em entrar para a polícia, mas ainda não decidiu em qual divisão gostaria de atuar. Silvia, que antes de carcereira já foi secretária e gerente de loja, passa uma imagem segura e, ao mesmo tempo, pacífica.
O segredo para manter tamanho equilíbrio? “Eu amo minha profissão”.

Vera

por Gabriela Mello

De saia jeans bem curta e blusa decotada, Vera Lúcia esconde não somente a idade, mas também sua profissão. Carcereira desde 1994, ela logo de cara trabalhou em uma das mais temidas cadeias públicas do Estado, a Dacar 10, em Praia Grande. Apesar da fama ruim carregada pela já extinta unidade, nada grave aconteceu durante os quatro anos em que atuou no local, mesmo tendo sob custódia de 700 a 800 presas. "Na verdade pedi pra ser transferida porque era mais perto da minha casa. O Dacar 10 era muito contra mão, tinha que pegar duas conduções", explica ela.
O olhar meio perdido esconde um episódio que Vera prefere não recordar: seu plantão no carnaval de 2007. "Eu entrei pra trancar as presas e elas pegaram as chaves que estavam comigo e nisso já seguraram a outra carcereira que estava na grade...me jogaram no chão, tentaram me amarrar, vendaram meus olhos, passaram um líquido no meu nariz pra eu desmaiar e fugiram", descreve pausadamente como se cada detalhe da história a fizesse sofrer um pouco mais.

Depois do trauma, as tarefas que antes eram parte da rotina agora são um martírio. "Eu voltei por Deus e estou lá até hoje por Deus e pelas minhas colegas, porque elas entram pra mim. Dentro do xis eu não entro mais, revista eu não faço. Já falei para o delegado, quer punir pune, porque eu não tenho mais estrutura emocional", desabafa. Ela conta que no dia da fuga chegou a pensar que seria presa, mas o delegado responsável interveio na situação e o saldo final foi um processo de investigação conduzido pela Corregedoria da Polícia Civil para checar seu papel no incidente.

Vera recebeu só um mês de licença e teve seu pedido de desvio de função negado. Desde então ela faz tratamento psiquiátrico e confessa que sempre recorre a calmantes para encarar o ambiente de trabalho. "Eu gostava de ser carcereira, polícia. Faltam cinco anos para eu me aposentar e eu não sei se vou agüentar estes cinco anos dentro de uma cadeia. Eu estou em contagem regressiva".

A decisão de prestar o concurso público foi impulsionada pela esperança de estabilidade financeira, motivo inclusive que a impede de jogar a toalha. “A família fica apavorada. Não pressiona porque é o ganha pão, mas quando vou trabalhar o pessoal fica naquele suspense”.

Vera conta que vira e mexe fica arrepiada quando alguém na rua a chama de Dona Verinha, apelido que recebeu das presas. “Às vezes nem me lembro da cara dela, mas se está na rua e chama de Dona Verinha, já sei que ou é preso ou é família de preso”.

Ainda na terceira classe, Vera reconhece o preconceito que rodeia a função. “O carcereiro é muito desprezado pelos outros, é a ralé da polícia. Tudo o que não presta é carcereiro”.

Em 15 anos de profissão, ela garante que adquiriu um único vício: “a gente pega umas gírias...”.